Flúmen é rio, curso, corrente de água. Singra-se o vocábulo e encontram-se flu: escorrer, deixar-se ir, liquefazer-se; e men(t): atividade do espírito, pensamento, ideia, memória.

Rio e memória, desde a antiguidade funcionam como tradução um para o outro: Lethes, o mítico Rio de Esquecimento, quando negado, torna-se aletéia, esclarecimento, rememoração. Ancorada nessas correspondências ancestrais de significados e imagens constitui-se a exposição de André Pardini e Danilo Rocco, que em suas poéticas particulares, buscam em conjunto confrontar os pares memória e materialidade, individualismo e coletividade, progresso e colapso.

Dedicada aos rios e à memória da cidade, a mostra aponta para a assimilação entre o automóvel e a identidade de São Paulo, desde o planejamento e a implementação da metrópole por seus planos de avenidas, modernização conservadora e prevalência da especulação imobiliária e monetária, que desapropria áreas a baixo valor para revalorizá-las por intermédio de obras viárias e da construção civil, forçando as águas urbanas a transformarem seu dinamismo geográfico em veículo para transporte de esgoto ou espaço para o veículo rodoviário, submetendo-as à retificação, à canalização e ao enterramento. Ao mesmo tempo em que são soterradas as memórias e vivências desinteressantes à produção imediata de capital.

Alegoricamente, os artistas arrancam os fragmentos dessa história de seu esfacelamento, forçando-os a significar, no esforço ético de reparar o percurso catastrófico, arrancam memória, cidade e rios da condição agônica de ocultamento e ruína pela ação plástica e imagética do fazer ver, desvelar, lembrar.

Ancestralidade, herança e legado são fundos comuns dos quais irrompem os trabalhos exibidos, seja na escolha do material pregnante e eloquente do composto água e petróleo ou na simbologia icônica e trajetual do desenho. Ao revirarem os fósseis materiais e sígnicos, ambos artistas convocam o que está imerso nas camadas subjetiva, privada e individual a reintegrar as esferas objetiva, pública e comunal, advertindo sobre reveses presentes nos ideais de sanitarismo, economicismo e consumismo que pavimentam os processos urbanos.

O exercício de uma espécie de dialética geológica, em que ecologia e memória da urbe são enfrentadas pela visualidade e artesania dos trabalhos artísticos, resulta neste espaço navegável de gestos e imagens, Flúmen.

Adrienne Firmo - curadora

Danilo Rocco - Memória oculta

A série de desenhos de Danilo Rocco sustenta-se sobre a concentração na manipulação do claro-escuro associada à potência do detalhe. Compele o olhar a itinerar pelas diferentes figuras e símbolos que a compõem e fazem emergir a sensibilidade mítica. Pelo uso da alegoria, o artista recorta e realoca fragmentos do universo simbólico de imagens assentadas no inconsciente compartilhado pela cultura, criando um ambiente onírico que boia sobre o fundo do papel. A disposição imagética profere um enunciado próximo das leis herméticas da vibração, do ritmo e da polaridade, segundo as quais tudo se move em seu fluxos e marés, reconciliando paradoxos. O conjunto evidencia vigor subjetivo, inclinação para a internalização e busca nas profundezas, transforma o que poderia ser impenetrável e tortuoso em assimilável, absorvível, por meio do traço manual, faz ver a instância comum da subjetividade pela partilha e evocação de signos ao convidar a se embrenhar no mistério da composição.

 

André Pardini - Rios de Asfalto

As monotipias de André Pardini conjugam, por meio de seu material e técnica, o conceito e a plástica. Originadas do experimentalismo e do convívio do artista com a lida em ateliê de gravura, seus elementos, aproveitamentos e descartes, valem-se da peculiaridade e expressividade de suas substâncias constituintes: água e asfalto, para articular e incitar considerações de cunho político-social a respeito das estruturas e ordenamentos da urbanização nos grandes centros. A visualidade, resultante da tensão entre o que é figurável e aquilo que escapa ao controle da modelagem, durante os embates do artista ao manipular materiais, sobrepor camadas, transparências, texturas e volumes, sinaliza a percepção em direção ao monumental, presente no imenso subterrâneo geológico das águas e do combustível fóssil, bem como nos empreendimentos de formação das metrópoles e projetos desenvolvimentistas, mas também às contradições e vicissitudes do progresso, engajando, assim, o trabalho artístico ao mister socioeducativo, chamando a atenção para temas como direito à cidade, mobilidade, consumo e ecologia urbana.

Fotos: Acervo pessoal

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Corpos d' água
Corpos d' água
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Organicidade
Organicidade
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André Pardini

é artista visual, diretor de arte e grafiteiro. Graduado em Artes Visuais pela Universidade do Estado de Santa Catarina/UDESC, onde trabalhou como monitor do ateliê de gravura, período em que iniciou as experimentações com asfalto e água, resultantes na série Rios de Asfalto. Participou de exposições coletivas na Galeria Estúdio e no Museu da Imagem e do Som, em Florianópolis. Realizou a instalação Sinta-se um Rio, na Elevador Galeria, Florianópolis. Expõe pela primeira vez em São Paulo.

Danilo Rocco

é artista visual e tatuador. Estudante de Design na Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC, expôs nas mostras coletivas Filmes Imaginários, no museu do Centro Integrado de Cultura/CIC, Florianópolis; na Galeria District em Amsterdam; na Feira de Publicações Independentes Parque Gráfico, em Florianópolis. Trabalha como designer gráfico freelancer e como tatuador no estúdio/galeria Art Live Lab, em Pedra Branca, SC. Expõe pela primeira vez em São Paulo.

Flúmen