CASA ÚMIDA

Uma dor delicada. Podemos definir assim o sentido primeiro que emerge da contemplação de Casa Úmida, projeto de Janice de Piero. Exposto no início de 2009 na Galeria Cubo, em Barcelona, o projeto traz materiais cotidianos, como o tecido voile, a renda e as pérolas, que povoam as formas criadas pela artista de significados imanentes: pureza, feminilidade, fragilidade.

Em Casa Úmida, material, conteúdo e forma são indissociáveis, criando objetos estéticos plenos de significação. A autoria de Janice revela-se a partir de um centro emocional e volitivo - de filha, irmã,mãe, enfim, da mulher - que se reconhece em sua obra, como mais um de seus aspectos constitutivos.

Nesse encontro de forma, conteúdo, material e auto-criador, emerge a temática do feminino, um universo ainda no século XXI marcado por tradições ideológicas dominantes nos espaços sociais, que entram em conflito com a intimidade e o desejo do espaço interior. Imagens emblemáticas dessa tensão entre interior e exterior apresentam-se nas diferentes obras de Casa Úmida, como a água represada em Choro, a clausura em Lágrimas Mudas, o trágico vir-a-ser em Eu me abismo.

Casa Úmida coroa, com a delicadeza da renda, da pérola e do predominante branco, o discurso da artista, presente em sua produção anterior, sobre o feminino, ou, em suas próprias palavras, sobre aconchego, proteção, fertilidade, maternidade, sensualidade, sexualidade, conflitos, medos e prazeres femininos.

Janice reconhece em Gaston Bachelard uma interlocução fundamental para sua concepção poética do espaço e da água. Dialoga também, com Fragmentos de um discurso amoroso de Roland Barthes e com Destruição do pai, reconstrução do pai, de Louise Bourgeois.

A artista paulistana formou-se pela faculdade de Belas Artes de São Paulo e estendeu sua formação em cursos oferecidos por importantes institutos, faculdades e ateliês de sua cidade. Teve, nesse percurso, a orientação de artistas como Nazareth Pacheco e Edith Derdyk, entre outros. 

                                                                                                                                                                     Adriana Pucci 

                                                                    Doutoranda em Linguística Aplicada pelo LAEL-PUCSP (com apoio do CNPq)

                                                                    Educadora do programa Contatos com a arte do MAM-SP

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