A Casa Amarela da Vila Romana foi construída por meu bisavô Angelo de Bortoli em 1921.

Angelo, filho de camponeses, nasceu em Padova / Itália em 1862. Após completar 18 anos resolveu deixar a família e aventurar-se em terras brasileiras. Ele não veio através do serviço de imigração, veio às suas custas “Alle sue spese” como gostava de frisar. Desembarcou no porto de Santos em 1880. Quando já estabelecido, motorista e dono de um ”Tilburi”, carro de praça levado por cavalos, comprou um grande terreno, totalmente tomado por imenso capinzal, na distante Vila Romana.

Em 1921, Angelo de Bortoli, já casado e com filhos, construiu a Casa Amarela para abrigar imigrantes que chegavam ao Brasil.

A casa ficava dentro de seu sítio, não havia ainda a demarcação das ruas.

A casa de aluguel acolheu muitas famílias. Ainda hoje encontro pessoas do bairro que emocionadas me contam que moraram no imóvel.

Diante da avassaladora especulação imobiliária na região, a existência da casa passou a ganhar dimensão simbólica ao representar a luta contra os desmandos das incorporadoras, um espaço de abrigo à maltratada memória e um lugar de afeto que possibilita reconhecer-se humano.

Sua existência tornou-se uma forma de hospitalidade. A casa passou a ter uma envergadura outra, talvez por ser associada à permanência que a vida não tem. As pessoas a fotografam, agradecem pela conservação, acenam em forma de elogio. A casa tornou-se um ícone.

Hoje ela é uma casa-aberta, expandida, num tempo em que grades, muros e monitores inibem e impedem relacionamentos de proximidade entre as pessoas. É uma casa-obra, pois em seu interior são realizadas instalações e encontros que propiciam gestos e relacionamentos.

Desde 2015 a Casa Amarela da Vila Romana participa da Jornada do Patrimônio.

História

As Exposições e Coabitações surgem com o objetivo de oferecer um espaço liso, que possibilite fluxos, que dilate o tempo e crie coexistências entre presente, passado e futuro.

Existe uma verdade existencial e cultural, a casa; uma força social relevante, as pessoas que contemplam a casa; assim, os eventos que congrega atuam como facilitadores para o engendramento de aproximações entre a edificação, o indivíduo, a coletividade e diferentes linguagens artísticas.

A relação íntima estabelecida com os moradores da região abre espaço para pessoas não familiarizadas com arte contemporânea, possibilita trocas e encontros entre diferentes esferas sociais e intelectuais.

A casa sempre oferece uma obra fixa, uma instalação, de caráter instigante e reflexivo. Durante o tempo em que a instalação fica em cartaz, outras coabitações acontecem, os visitantes contribuem com propostas de ações artísticas, culturais e educativas para o espaço expositivo.

As coabitações implicam estreitamentos sensíveis entre casa, identidade, cidade, memória, indivíduo e coletividade.

A Casa Amarela abriga o físico e acolhe o psíquico. A “casa” oferece um “espaço prazer”.

“Sob determinadas circunstâncias o espaço edificado parece ser vivenciado como uma espécie de pele subjetiva, eminentemente simbólica, que envolve o sujeito de modo surpreendentemente prazeroso." - Lucia Leitão.

Projeto Pedagógico-Artístico-Social

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